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| Nova Orbis Tabula in Lucem Edita, published this year by Dutch cartographer Frederik de Wit |
Marcos Silva[1]
“Já conheço as pedras do caminho”
(Tom Jobim e Chico
Buarque, “Retrato em branco e preto”)
Renato Janine Ribeiro é um intelectual
culto e respeitável. Seus comentários sobre Ensino de História merecem toda
atenção e respostas de quem participa desse campo de conhecimento como
profissional em diferentes graus de ensino e pesquisa.
É importante destacar que o texto sobre Ensino de História analisado por Renato
foi elaborado por uma equipe convidada pelo MEC, suponho que o convite se
baseou em reconhecidos méritos dos convidados - o então ministro, por motivos
éticos, jamais patrocinaria uma ação entre amigos. O texto foi divulgado pelo
mesmo MEC. Daí, não poder ser encarado como opinião pessoal de cada membro do
grupo nem mesmo como postura exclusiva desse coletivo, ele é do MEC, sim!
Certamente, o escrito é uma versão preliminar e pouco didática, dando lugar a
incompreensões de leitores, inclusive pessoas altamente qualificadas, como
Renato.
Uma deficiência didática do texto, que
gera equívocos de leitura, é não deixar absolutamente claro que enfatizar
Brasil não significa ignorar Mundo. Deixando de lado as pesquisas de Varnhagen,
no século XIX, em arquivos europeus, em busca de documentação atinente à
História do Brasil, autores clássicos mais recentes, como Caio Prado Jr.
(Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo) e Fernando
Novais (Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial) deixam
escancaradamente patente que falar em Brasil é também falar em Mundo, a
colonização existe nos quadros da política econômica europeia da modernidade
etc. Novais, posteriormente, num dos ensaios do volume Cotidiano e vida privada
na América portuguesa (integrante da série "História da vida privada no
Brasil", que ele dirigiu), realçou a grande importância ideológica do
Catolicismo na experiência colonial, sacralizador da posse e/ou controle sobre
terras e/ou gentes. É impossível discutir Catolicismo sem pensar nas
Antiguidades hebraica, grega e romana, bem como nas Antiguidades de Egito e
Mesopotâmia. Os autores daquele texto sobre Ensino de História, com absoluta
certeza, leram Prado Jr. e Novais (são graduados em História), sabem desses
laços profundos Brasil/Mundo, entre presentes e diferentes camadas de
experiência histórica nos passados.
Por
que, então, enfatizar Brasil e África?
Sobre África, existe exigência legal, que
Renato bem conhece, além de exigência ética - mais de 50% da população
brasileira é afrodescendente, de acordo com o Censo de 2010. Isso não é
ideologia. Ideologia é fazer de conta que somos Europa bronzeada.
Sobre Brasil, entendo que o texto
explicitou lugar e tempo a partir de onde historiadores, professores e alunos
falam: somos brasileiros, o Ensino de História é consciência de si, que não
renuncia à consciência sobre os outros - outras épocas e outros espaços: Rimbaud
nos ensinou que “O Eu é um Outro” (carta para Paul Demeny).
O texto, em seu escasso didatismo e em sua
forma tão preliminar, não explica porque não partiu de uma cronologia ortodoxa
nem começou do aparente começo (“mito das origens”, de acordo com o grande
clássico Marc Bloch - Apologia da
História ou Ofício de Historiador). Existem críticas a essa cronologia
ortodoxa (o livro Devemos fazer tabula-rasa do passado?, de Jean Chesneaux,
tece comentários bem humorados sobre seu teor de dominação política secular).
Ela significa dizer que tudo deriva de uma só matriz mundial - Europa -, ótimo
argumento ideológico para justificar a dominação desse continente sobre o
mundo, depois desdobrada em dominação estadunidense. China e Índia antigas
somem desse panorama, África aparece como dotada de homens equiparados à fauna
(o tema aparece em Hegel) etc.
Escapar criticamente da cronologia
ortodoxa não significa ignorar cronologias (no plural, sim) nem seus
respectivos conteúdos. Jamais prescindiremos de Grécia Antiga. Mas essa
necessidade não tem cunho burocrático, ela se insere em problemas de
conhecimento - aquela Grécia está em nós, metamorfoseada por tantas outras
experiências.
Renato expressa o desejo de um ensino
crítico de História, “mas sem descambar para a ideologia”. Infelizmente, a
quase totalidade do ensino de História (e de outros componentes curriculares)
está imersa em ideologia há muito tempo. O Renascimento, citado por Renato, é
habitualmente ensinado como ideologia - idade de ouro e tópicos similares. É
claro que todo cidadão deve ter o direito ao Renascimento como importantíssimo
tópico de História, de preferência longe de fetiches, de preferência em efetivo
contato com obras de pensamento e arte que alarguem nosso conhecimento, ao
invés de nos fazerem adormecer num passado de suposta glória.
Renato defende uma Educação democrática e
de qualidade, valores que eu também defendo plenamente. O texto que ele comenta
faz parte desse universo. Pode ser melhorado, tudo pode ser melhorado.
Descartá-lo, em nome do que ele não faz, é um desserviço para aquele objetivo.
[1]
Marcos Silva
é Professor Titular de Metodologia da História na FFLCH/USP. Foi Assessor da
Proposta Curricular de História da CENP/SP nos anos 80 e da Proposta Curricular
de História da PMSP na década seguinte. Atuou como consultor na elaboração do
documento aqui discutido. Publicou individualmente os livros História - O
prazer em Ensino e Pesquisa, Ed. Brasiliense, e, em paprceria com Selva
Guimarães, Ensinar História no século XXI - Em busca do tempo entendido, Ed.
Papirus. Organizou as coletâneas Repensando a História, Ed. Marco Zero;
História em quadro-negro (número temárico da Revista brasileira de História),
Ed. Marco Zero; e História - Que Ensino é esse?, Ed, Papirus.
