segunda-feira, 12 de outubro de 2015

ENSINAR HISTÓRIA - O BRASIL NO MUNDO, O MUNDO NO BRASIL

Nova Orbis Tabula in Lucem Edita, published this year by Dutch cartographer Frederik de Wit


Marcos Silva[1]



Já conheço as pedras do caminho
(Tom Jobim e Chico Buarque, “Retrato em branco e preto”)


Renato Janine Ribeiro é um intelectual culto e respeitável. Seus comentários sobre Ensino de História merecem toda atenção e respostas de quem participa desse campo de conhecimento como profissional em diferentes graus de ensino e pesquisa.

É importante destacar que o texto sobre Ensino de História analisado por Renato foi elaborado por uma equipe convidada pelo MEC, suponho que o convite se baseou em reconhecidos méritos dos convidados - o então ministro, por motivos éticos, jamais patrocinaria uma ação entre amigos. O texto foi divulgado pelo mesmo MEC. Daí, não poder ser encarado como opinião pessoal de cada membro do grupo nem mesmo como postura exclusiva desse coletivo, ele é do MEC, sim! Certamente, o escrito é uma versão preliminar e pouco didática, dando lugar a incompreensões de leitores, inclusive pessoas altamente qualificadas, como Renato.

Uma deficiência didática do texto, que gera equívocos de leitura, é não deixar absolutamente claro que enfatizar Brasil não significa ignorar Mundo. Deixando de lado as pesquisas de Varnhagen, no século XIX, em arquivos europeus, em busca de documentação atinente à História do Brasil, autores clássicos mais recentes, como Caio Prado Jr. (Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo) e Fernando Novais (Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial) deixam escancaradamente patente que falar em Brasil é também falar em Mundo, a colonização existe nos quadros da política econômica europeia da modernidade etc. Novais, posteriormente, num dos ensaios do volume Cotidiano e vida privada na América portuguesa (integrante da série "História da vida privada no Brasil", que ele dirigiu), realçou a grande importância ideológica do Catolicismo na experiência colonial, sacralizador da posse e/ou controle sobre terras e/ou gentes. É impossível discutir Catolicismo sem pensar nas Antiguidades hebraica, grega e romana, bem como nas Antiguidades de Egito e Mesopotâmia. Os autores daquele texto sobre Ensino de História, com absoluta certeza, leram Prado Jr. e Novais (são graduados em História), sabem desses laços profundos Brasil/Mundo, entre presentes e diferentes camadas de experiência histórica nos passados.

Por que, então, enfatizar Brasil e África?

Sobre África, existe exigência legal, que Renato bem conhece, além de exigência ética - mais de 50% da população brasileira é afrodescendente, de acordo com o Censo de 2010. Isso não é ideologia. Ideologia é fazer de conta que somos Europa bronzeada.

Sobre Brasil, entendo que o texto explicitou lugar e tempo a partir de onde historiadores, professores e alunos falam: somos brasileiros, o Ensino de História é consciência de si, que não renuncia à consciência sobre os outros - outras épocas e outros espaços: Rimbaud nos ensinou que “O Eu é um Outro” (carta para Paul Demeny).

O texto, em seu escasso didatismo e em sua forma tão preliminar, não explica porque não partiu de uma cronologia ortodoxa nem começou do aparente começo (“mito das origens”, de acordo com o grande clássico Marc Bloch - Apologia da História ou Ofício de Historiador). Existem críticas a essa cronologia ortodoxa (o livro Devemos fazer tabula-rasa do passado?, de Jean Chesneaux, tece comentários bem humorados sobre seu teor de dominação política secular). Ela significa dizer que tudo deriva de uma só matriz mundial - Europa -, ótimo argumento ideológico para justificar a dominação desse continente sobre o mundo, depois desdobrada em dominação estadunidense. China e Índia antigas somem desse panorama, África aparece como dotada de homens equiparados à fauna (o tema aparece em Hegel) etc.

Escapar criticamente da cronologia ortodoxa não significa ignorar cronologias (no plural, sim) nem seus respectivos conteúdos. Jamais prescindiremos de Grécia Antiga. Mas essa necessidade não tem cunho burocrático, ela se insere em problemas de conhecimento - aquela Grécia está em nós, metamorfoseada por tantas outras experiências.

Renato expressa o desejo de um ensino crítico de História, “mas sem descambar para a ideologia”. Infelizmente, a quase totalidade do ensino de História (e de outros componentes curriculares) está imersa em ideologia há muito tempo. O Renascimento, citado por Renato, é habitualmente ensinado como ideologia - idade de ouro e tópicos similares. É claro que todo cidadão deve ter o direito ao Renascimento como importantíssimo tópico de História, de preferência longe de fetiches, de preferência em efetivo contato com obras de pensamento e arte que alarguem nosso conhecimento, ao invés de nos fazerem adormecer num passado de suposta glória.

Renato defende uma Educação democrática e de qualidade, valores que eu também defendo plenamente. O texto que ele comenta faz parte desse universo. Pode ser melhorado, tudo pode ser melhorado. Descartá-lo, em nome do que ele não faz, é um desserviço para aquele objetivo.



[1] Marcos Silva é Professor Titular de Metodologia da História na FFLCH/USP. Foi Assessor da Proposta Curricular de História da CENP/SP nos anos 80 e da Proposta Curricular de História da PMSP na década seguinte. Atuou como consultor na elaboração do documento aqui discutido. Publicou individualmente os livros História - O prazer em Ensino e Pesquisa, Ed. Brasiliense, e, em paprceria com Selva Guimarães, Ensinar História no século XXI - Em busca do tempo entendido, Ed. Papirus. Organizou as coletâneas Repensando a História, Ed. Marco Zero; História em quadro-negro (número temárico da Revista brasileira de História), Ed. Marco Zero; e História - Que Ensino é esse?, Ed, Papirus.